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TEMATICA VARIADA, COM MAIOR INCIDÊNCIA NA MUSICA GENERALISTA, E NA FOTOGRAFIA, OBVIAMENTE COMO PILAR DE ESTAS DUAS FORMAS DE ARTE, ESTARÁ A POESIA
Até aos anos 20 o bronzeado era comum apenas nas classes pobres. Jamais uma lady se expunha ao sol. Estar na moda implicava ser-se o mais pálido possível. Por exemplo, no tempo da rainha Elizabeth I de Inglaterra (1533-1603), era usual branquear-se o rosto com compostos de carbonato, hidróxido de chumbo e outros químicos, de modo a tornar as faces de uma palidez extrema - semelhante a porcelana. Todavia, o acumular diário destas substâncias na pele foi responsável por inúmeros problemas de saúde, nomeadamente casos de paralisia muscular.
No que concerne ao peso ideal - massa do corpo expressa em quilos - ao longo dos tempos as flutuações foram também bastante interessantes e dependeram, obviamente, do estrato social. Se actualmente os modelos do século XVII, pintados por Rubens, quisessem conquistar as passerelles teriam de passar meses e meses de dieta.
No que ao cabelo diz respeito, há também muito para contar. No século XVIII ninguém se preocupava em mantê-lo cuidado ou sequer limpo. Jamais alguém ousava aparecer em público sem antes colocar a sua bizarra peruca. Este hábito era tão popular e as perucas eram tão grandes e tão sujas, que era comum encontrarem-se ratazanas a viver dentro delas.
Mas, o estereótipo de beleza não reflecte apenas as variações temporais, depende também da localização geográfica. Por exemplo, ainda hoje, na tribo Paduang, no Mianmá, antiga Birmânia, no sudeste da Ásia, a ênfase é dada ao comprimento do pescoço, em detrimento de outras características faciais ou corporais. De acordo com a tradição, por volta dos 3 ou 4 anos de idade as meninas recebem os primeiros anéis para colocar ao pescoço e ano após ano mais anéis são acrescentados. Quando chegam à altura de casar, as raparigas mais belas da tribo são aquelas cujo comprimento do pescoço supera os 25cm.
No caso dos homens as diferenças também são dignas de registo. Se alguém me propusesse a difícil tarefa de eleger o homem mais bonito da actualidade, vacilaria entre Adam Rodriguez, Anson Mount, Chace Crawford, George Clooney, por serem, simultaneamente, bonitos, atléticos e de um charme...
Contudo, qualquer um dos supracitados, no século XVIII, poderia, eventualmente, ser considerado como uma aberração da natureza. Neste período, qualquer homem bonito usava peruca, resmas de maquilhagem, litros de perfume e chorar em público era uma prática comum e fundamental para demonstrar o seu cavalheirismo. A este propósito, conta-se que quando o Primeiro-ministro britânico, Lord Spencer Percival, reunia com o Rei George IV para lhe dar as más notícias, ambos se sentavam e choravam compulsivamente.
Mas ainda hoje se Chace Crawford fosse viver para a tribo Dinka, do Sudão, teria com certeza sérios problemas em arranjar noiva, pois nesta tribo o padrão de beleza ainda se norteia pelo o obsoleto lema - “gordura é formosura”. De acordo com a tradição, anualmente, os homens competem para conquistar o honroso título - “O mais corpulento”. Segundo consta, no final da competição o vencedor fica com a certeza de ser o preferido entre o mulherio, dado que, para elas, gordura é sinónimo de riqueza e poder.
Meu adorável sedutor...
É poeta, um poeta pode mentir? É mais fácil jogar com palavras, frases e poesias, todas lindas tocantes. Não posso dizer que inventas sentimentos. Que não pretendes, ou melhor,posso,acho dizer que não ousarias... Só não posso dizer que fizestes isto comigo. Não jogastes. Somos diferentes ventos, lentos momentos. Quentes, mornos, frios, leves, pesados. Já tive momentos sombrios, mas já ri muito. De mim, de ti. Ri, mesmo com lágrimas escorrendo no meu rosto. Rosto confuso e idiota. Ainda está, aqui, tudo guardado, mas aquilo que não é alimentado é esquecido. Que emboscada... Que difícil entender.
Quão difícil aceitar. Que vives a apaixonar-te. Agora quero liberdade. Quero jogar meu jogo. Se for preciso quero brincar com fogo. Mas não serei mais a disponível. Aquela que sempre esperou algo mais, Algo forte, como um eu te amo. Como um e-mail louco. Um telefonema inesperado. Caso tenhas medo do amor. Eu não tenho. Vou amar, porque gosto de ter Esta sensação de saborear um bom Sentir. Eu tenho paz, pois sempre tive a certeza.
De quão fiz para te ter. Sei que és doce, sei que és meu. Sei que não sabes, sei que é tarde. Resta-me um pesar ainda tolo. Para chegar ao fim. Arrependerás, pois amarias não somente meu corpo, mas minha alma tu já amas. Mas não sabes, não tenho tempo de esperar teu despertar, tuas atitudes. Meu beijo para ti. Estou gelada, te queria aqui, juntinho comigo, mas agora o caminho é esquecer. Que Isto é só o início, nós vamos cair no esquecimento. Para isto não acontecer, somente, pedindo ao cosmos, a DEUS, aos Deuses uma ajudinha, pois meu santo está cansado. Então é verdade que é bobo quem acredita nos poetas, sempre soube que não era esperta, mas não pensei que fosse tão alienada,cega em ti.

Antony Hegarty será protagonista este verano por partida doble. Entre el 1 y el 12 de agosto se estará celebrando en el Southbank Centre londinense la 19ª edición del Meltdown Festival, comisariada por él. En esas mismas fechas, los sellos Secretly Canadian y Rough Trade se ocuparán de poner en circulación el nuevo álbum de Antony and the Johnsons, “Cut The World”, un nuevo episodio en “la continua meditación de Antony sobre la luz, la naturaleza y al femineidad”, según su sello.
Se trata de un álbum grabado en directo durante los dos conciertos que Antony and the Johnsons ofrecieron en septiembre del pasado año en el DK Concert Hall de Copenhague, con acompañamiento de la Danish National Chamber Orchestra. Reunirá doce cortes, la mayoría interpretaciones de canciones incluidas en sus álbumes previos (con nuevos arreglos orquestales ideados para la ocasión por Nico Muhly, Rob Moose, Maxim Moston y el propio Antony), aunque también hay lugar para un par de momentos inéditas, como un corte de spoken word titulado “Future Feminism” (puedes escucharlo bajo estas líneas) o “Cut The World”, una de las piezas compuestas junto a William Basinski para el montaje escénico “The Life and Death of Marina Abramović”.
Artista:Antony & The Johnsons
Sello:Rough Trade Records, Secretly Canadian
Género:pop, chamber pop
Teu sal
No sabor da tua presença
Soando febre
Perfura a parede
No perigo dessa fissura
O fundo da doença do golpe da vaga´
E perdida bravura´
A vida
E a terra dos meus sentidos é água
Num charco de dor
Talhado na garganta do mistério
Na amargura do meu querer.
E quando penso retomar outro rumo
Teu sal torna
E envolvendo-me
Queima construindo
Todas as minhas forças
by Jorge Pereira
Fragmento de Ausências...(In Releitura)
Nos lençóis inertes vibra a dor
De sentimentos silenciosos.
Ao som do piano, ouço tua voz
E uma lágrima cai chamando a solidão.
É como se cada nota inspirasse
Em mim uma nostalgia, uma saudade.
Ou um passado distante...
Faço dos meus toques
Saudade de nossos corpos.
Das palavras gravadas na pele
Ecos indeléveis do nosso desejo.
Beijo-te neste lamento,
Onde as palavras saem
À procura do significado
Das loucuras de amor
Tatuadas no meu peito
Intimamente impregnadas
No meu corpo.
__________Vestall Lilith
Juan Francisco Casas Ruiz tem a vocação e o olhar de conseguir transferir a realidade para desenhos a partir da técnica com canetas esferográficas comuns.
Quando nos deparamos com as pinturas de Juan Casas, pensamos que seja apenas uma mera reprodução de uma fotografia em escala maior. Mas, ao observarmos mais de perto, verificamos que toda sua arte é feita com canetas comuns.
Licenciado pela Universidade de Granada de Belas Artes (1999), começou como pintor tradicional. E este início foi de grande importância para que sua criatividade começasse a ganhar asas para o que hoje consegue reproduzir. Tudo começou de uma forma muito sutil. A partir de fotos com amigos tiradas em ocasiões festivas e descontraídas, reproduzia-as com canetas como forma de obter o maior realismo possível. Com o tempo, a prática o levou quase a uma perfeição. Em cada obra chega a utilizar de 14 a 18 canetas e pode levar semanas até a finalização de uma obra.
O interessante ao observar seus desenhos, além do jogo de luzes, é o movimento que se obtém, que sugere um efeito tridimensional. Sua inspiração são corpos femininos devido à dificuldade em desenhá-los por causa das suas formas harmoniosas e angulares. A base para o desenho começa desde a escolha de uma foto peculiar e caminha para ampliação do mesmo em rascunho em escala maior. Algumas de suas escolhas são apenas a reprodução de olhares, sorrisos ou ângulos inusitados. Esta sensualidade, que é bem explorada pelo artista, é o fator que ajuda em toda esta profundidade que acompanha em seu trabalho.
Ganhador de diversos prêmios, em média chega a vender cada pintura por 3.750,00 euros. Aprecie um pouco mais os detalhes desse artista.
Blow-up é um longa-metragem recheado de metáforas que incita a uma discussão sobre a representação da realidade pela fotografia. Uma análise dos créditos iniciais mostra o vanguardismo de Antonioni, ao fazer deste mero artifício técnico uma metáfora. Pode parecer entediante, mas não é.
Alguns filmes das décadas de 1960 e 70 trouxeram à grande tela questões que marcaram a história desde os anos seguintes até à atualidade. Diretores como Miloš Forman (Hair) e Stanley Kubrick (Laranja Mecânica) são hoje referência da crítica por tratarem, anos atrás, de assuntos “nunca tão atuais”, como os próprios críticos contemporâneos dizem. Obras como estas estão imortalizadas e são hoje acessíveis em DVD e outras mídias, caso o espectador não se preocupe com os aspectos legais.
Um destes “diretores visionários” (mais uma vez utilizando os clichês da crítica) é Michelangelo Antonioni, não tão conhecido do grande público e por isso motivo principal deste artigo.
Em 1966, o cineasta italiano estreou (em inglês) sua magnum opus: Blow-up, traduzida no Brasil como Blow-up – Depois Daquele Beijo e em Portugal como Blow-up – A História de Um Fotógrafo. O longa é recheado de metáforas e incita a uma discussão sobre a representação da realidade pela fotografia. Pondera questões como “até onde o que é captado pelo equipamento pode ser realidade?”, “a imagem representada pela fotografia depende inteiramente da interpretação humana?” e muitas outras, que surgem de acordo com a interpretação do espectador (!). Pode parecer entediante, mas não é.
Blow-up (vou economizar caracteres e utilizar seu título original) não é um documentário. Não contém “especialistas” que nunca se encontraram discutindo um assunto específico. Pelo contrário: é uma narração ficcional baseada num conto de Julio Cortázar, que prende o espectador com personagens cativantes muito bem construídos.
“Filme obrigatório” (mais uma vez o linguajar dos críticos!) para os amantes de artes plásticas, fotografia, cinema, moda, estudantes de semiótica e filósofos de botequim. Confira abaixo o teaser do mesmo:
“Algumas vezes a realidade é mais estranha do que todas as fantasias”, é a primeira frase dita pelo narrador no teaser. É em meio a um paralelo real-fantástico passado na Swinging London dos anos 1960 que o ator David Hemmings vive Thomas (cujo nome não aparece no filme sequer uma vez): um arrogante fotógrafo de moda que, apesar de ser um renomado profissional, tem uma vida conturbada, caótica e aparentemente infeliz. Certo dia, num parque, o personagem fotografa, sem permissão, uma jovem em companhia de um homem mais velho. Esta jovem, incomodada com as atitudes invasivas de Thomas, o segue até sua casa e exige o filme que utilizou (lembrem-se: não havia fotografia digital nesta época!), porém ele lhe entrega um rolo virgem.
Intrigado com a preocupação da mulher, Thomas revela e amplia as imagens para analisar a sequência, voltando sua atenção para um detalhe de uma delas, que mostrou um indivíduo (seria mesmo um indivíduo?), inicialmente oculto, com uma arma na mão (seria mesmo uma arma?). Tentando obter mais detalhes, Thomas utiliza a técnica do close-up e amplia a fotografia sucessivas vezes até a sua deformação (ato expresso em inglês como blow-up, eis a origem do nome do filme). Por conta deste zoom, a imagem do, digamos, “personagem-surpresa” se distorce em inúmeros pontos granulados (nada de pixels!), o que impede qualquer afirmação.
Havia realmente alguém ali? Esse alguém apontava uma arma? Isso explica o incômodo da mulher? Ela estava sob ameaça? Ou era o homem mais velho que estava sob ameaça? Seria tudo uma emboscada planejada por ela para assassinar o homem mais velho? Paro por aqui com a sinopse (e as indagações) para evitar reclamações. Antonioni, segundo alguns críticos, é um cineasta “além-Hollywood” – expressão utilizada (pelos críticos!) para classificar filmes que vão além da superfície das telas, aproximando-se mais do conceito de arte do que de entretenimento. Uma das características deste gênero é o uso de metáforas para abordar indiretamente temas mais profundos ou até mesmo considerados tabus para a época de seu lançamento.
Vamos a uma pequena análise dos créditos iniciais de Blow-up, que destacou Antonioni como vanguardista ao fazer deste mero artifício técnico um canal estritamente metafórico para introduzir um conceito-chave ao espectador – ainda que isso passe despercebido pela maioria do público.
A abertura em questão traz informações técnicas do filme ao som do jazz de Herbie Hancock, porém suas letras são vazadas e, através delas, podemos vislumbrar pedaços de uma imagem que ali se esconde, de compreensão muito difícil. Segundos depois, após o título do filme surgir na tela, há uma ampliação do quadro e a imagem subliminar finalmente nos é revelada - porém, por um curtíssimo espaço de tempo: uma linda mulher seminua num telhado que causa alvoroço nos transeuntes (fotógrafos? jornalistas?). Os créditos prosseguem, colocando o espectador outra vez na situação primeira. Todavia, agora que temos conhecimento do todo – ainda que por meio de um flash – conseguimos imaginar o que se passa nos pedaços faltantes.
Essas tentativas de desvendar a cena causam certa sensação de desconforto pelo fato de já sabermos do que trata a imagem, mas não termos certeza alguma, já que nossas suposições se baseiam não na imagem estática de uma fotografia, mas numa imagem em movimento, o vídeo. Afinal, as frações da imagem que estamos a assistir são realmente o que estamos imaginando? Este pequeno detalhe serve como uma perfeita alusão ao que está por vir e, ao ser relacionado com o desfecho do filme, funciona como uma chave para sua compreensão. É a primeira de muitas metáforas sincronizadas e interligadas desta grande obra.
O mundo nunca esteve tão multimídia como hoje. Somos bombardeados diariamente por fotografias, vídeos, cartoons, ilustrações e outras formas de representação imagética da realidade – uma overdose. Antonioni, como todo “gênio do cinema” (outra vez um clichê da crítica) exalta a privilegiação da imagem sobre o mundo real: a metáfora perfeita para a supervalorização dos estímulos sintéticos sobre os naturais.
Antonioni vê o homem do século XX como um prisioneiro das regras sociais que ele mesmo criou, em meio a um novelo de amarras sociais guiado pela inércia ideológica. Estas propriedades, tão comuns nas distopias escritas décadas atrás, relacionam-se de forma explícita com uma das características mais latentes da pós-modernidade: a dominação da comunicação estritamente visual (ou vai dizer que você não viu as imagens e assistiu os vídeos deste artigo?). Blow-up funciona como um registro dos primórdios desta idolatria opticista, seus efeitos colaterais e, quem sabe, uma possível superação. Se não assistiu ainda, faça-o! Qual a sua interpretação?
Fonte: muito do que foi escrito aqui teve como base um capítulo inteiro dedicado ao filme Blow-up no livro À Meia-Luz: cinema e sexualidade nos anos 70, de Paulo Menezes, publicado em 2001 pela Editora USP.
Veneza é tema e cenário para narrativas e mitos que marcaram a história. Mais do que qualquer outra, ela foi recriada, ao longo dos séculos, pelos olhares de quem a pintou, escreveu, fotografou.
© Canaletto, "O Grande Canal e a Igreja da Saúde", óleo s/ tela (1730), Museu das Belas Artes de Houston.
Se não “a mais...”, Veneza é talvez “uma das mais” literárias e representadas cidades da Europa. É, por certo, impossível listar a fortuna literária, artística e histórica cujo pano de fundo é estampado por esta cidade, sempre referida pelos seus canais onde navegam, além de suas célebres gôndolas, mistérios e mitos populares.
Desde o século XV e XVI, a “Sereníssima”, como era conhecida a atual cidade de Veneza, antes uma República pacífica, tinha ares de “recinto de férias e descanso”. As águas que a recortam e perpassam são entendidas como verdadeiros atores de influência em sua cultura, hábitos cotidianos e, inclusive, produção artística. Veneza teve uma produção artística rival da de outra grande República italiana, Florença. Os florentinos defendiam o primado do desenho; já os venezianos contrapunham a supremacia da cor. Há quem diga que tudo isso se deveu a influência do contato direto e cotidiano com as águas dos canais e do mar - que garantiu, por sinal, a soberania econômica desta cidade durante tanto tempo, se comparada às outras províncias da Península Itálica naquela altura.
Jessica e Shylock, personagens de "O mercador de Veneza", num quadro de Maurycy Gottlieb
O século XVIII, dando agora um salto na História, nos legou a obra de Canaletto, pintor rapidamente recordado pelos delicados e cuidadosos panoramas venezianos. O século XIX, por seu lado, nos deu uma visão duplicada de Veneza: de um lado a cidade surge cercada de mistérios, de histórias assombrosas de afogamentos, de crimes, mas por outro de amores trágicos, de sofrimentos e até mesmo, por vezes, de decadência, visão essa que, de alguma maneira vai ecoar no século seguinte, nas palavras de Sartre e Mann. Basta lembrarmos que, séculos antes, em “O Mercador de Veneza” (1596-1598), de Shakespeare, o drama e a decadência já eram a atmosfera predominante, embora a peça seja considerada uma obra-prima da comédia. Do mesmo autor, em “Otelo, o Mouro de Veneza” (c. 1603) são a inveja e a ruína humana que encontram os seus lugares. Mais tarde, no século XIX, nasceu a Bienal de Veneza (1895), hoje uma das exposições de arte mais importantes do mundo.
Tintoretto, "Triunfo de Veneza" , óleo s/ tela (1584), Palácio Ducal de Veneza (detalhe).
A alvorada do século XX mostra-nos conscientemente Veneza segundo todo o peso das histórias nas quais a cidade foi assunto, tema ou cenário. Desde Thomas Mann, no início do século, com a "Morte em Veneza", a Sartre, que dedicou à cidade um conjunto de ensaios, entre os quais “O Sequestrado de Veneza”, sobre Tintoretto, pintor que nasceu e sempre trabalhou em Veneza. É deste livro o primeiro dos trechos literários selecionados que seguem.
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“...em Veneza nada é simples. Pois não é uma cidade, não: é um arquipélago . Como poderíamos esquecer? De sua ilha, você olha a ilha da frente com inveja: ali, há... o quê? Uma solidão, uma pureza, um silêncio que não há, você juraria, do lado de cá. A verdadeira Veneza, onde quer que você esteja, está sempre em outra parte. Para mim, ao menos, é assim. Normalmente, contento-me com o que tenho mas, em Veneza, sou presa de uma espécie de loucura invejosa; se não me contivesse, estaria o tempo todo nas pontes ou nas gôndolas, procurando desvairadamente a Veneza secreta da outra borda. Naturalmente, assim que a abordo, tudo desvanece; me volto: o mistério tranquilo formou-se novamente do outro lado. Há muito me resignei: Veneza está lá onde não estou”.
SARTRE, Jean Paul. Veneza de minha janela. In.: O sequestrado de Veneza. – São Paulo: Cosac Naify, 2005.
Fotograma do filme de Visconti "Morte em Veneza".
“Finalmente ele o revia, o mais incrível desembarcadouro, aquela deslumbrante, fantástica composição arquitetônica que a República oferecia ao olhar atônito e cheio de veneração dos navegantes que dela se aproximavam – imponência etérea do Palácio, a Ponte dos Suspiros, as colunas à beira d’água com leão e o santo padroeiro, o perfil da fabulosa catedral sobressaindo suntuoso, o portal e o gigantesco relógio, que se deixavam entrever – e, enquanto o contemplava, Auschenbach ponderou que chegar a Veneza de trem, vindo por terra, era o mesmo que entrar num palácio pela porta dos fundos, e que jamais alguém deveria aproximar-se da mais incrível de todas as cidades a não ser de navio, atravessando o mar, como o fizera agora”.
MANN, Thomas. Morte em Veneza. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.
“De novo, na imaginação eu te contemplo! Mais uma vez teu vulto se ergueu diante de mim... Não, não como te encontras, no frio vale, na sombra!, mas como deverias estar, dissipando uma vida de sublime meditação naquela cidade de sombrias visões, tua própria Veneza, que é um Eliseu do mar querido das estrelas, onde as amplas janelas dos palácios paladinos contemplam, com profunda e amarga reflexão, os segredos de suas águas silenciosas”.
POE, Edgar Allan. O Visionário, várias edições livres na web.