sexta-feira, 23 de abril de 2010



É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.


Eugénio de Andrade,

J. Krishnamurti




A lua rubra, rubra surgiu

Dos lados do Oriente, sobre o mar sonhador.

A sombria palmeira balança

Com o tombar da noite calma.

Ouve-se o grito distante de uma ave

Em vôo para o ninho.

Há o suave encrespar das águas frias

Batendo as praias cálidas.




Um coração carregado

De alegria pungente, quase dor.

Um coração de entendimento me é mister.




Um canto melodioso

Suave qual lamento

Vem das profundezas da sombra.

O ar tranqüilo da noite fica opresso.




Como a luz distante que tremula

Na torre escura do templo,

Por cima dos fiéis

E de suas preces sussurrantes,

Muito acima dos deuses silenciosos

Entre as suas moradias nevoentas,

Assim eu me tornei

Livre da mão que me empolgava,

Conquistador de tempos dolorosos

E de suas tristes vias.




Amigo,

Deixa de lado as complicações das crenças

Destrói as monumentais superstições

Do credo que te escraviza.

Porém, cresce na singeleza de teu coração,

Nas sombras do teu sofrimento.




Ó Bem Amado,

Meu coração pesa com teu amor.





miles davis



A UNIÃO SIMPLES

J. Krishnamurti




Escuta-me, Oh! Amigo

Sejas Yogi, ou Sacerdote ou Monge,

Um devoto amante de teu Deus,

Um peregrino em busca da ventura,

Banhando-te nos Santos Rios,

Freqüentando os Sacros altares,

O ocasional cultuador de um dia,

Um grande ledor de livros,

Ou um construtor de muitos templos;

Meu amor dói-me por ti,

Eu sei o caminho para o coração do Bem Amado.




Esta luta vã,

Este longo afã,

Esta tristeza intérmina,

Este prazer cambiante,

Esta dúvida que queima,

Este prezar da vida,

Tudo isso cessará, oh! Amigo.

Meu amor doi-me por ti.

Eu sei o caminho para o coração do Bem Amado.




Peregrinei pela terra,

Amei os reflexos,

Cantei, entoando em êxtase.

Cobri a fronte de cinzas,

Ouvi os sinos dos templos,

Envelheci no estudo,

Procurei.

Perdi-me?

Oh! sim, muito aprendi.

Meu amor doi-me por ti,

Eu sei o caminho para o coração do Bem Amado.




Amigo,

Amarás os reflexos

Quando eu posso propiciar-te a realidade?

Lança fora teus sinos, teu incenso,

Teus temores e deuses,

Põe de lado teus credos e filosofias.

Vem, põe de lado tudo isso.

Eu sei o caminho para o coração do Bem Amado.




Amigo,

A simples união é a melhor.

Este é o caminho para o coração do Bem Amado.





Eu Não Sou Poeta


Quem me dera saber
Fazer versos, rimar
Para um dia escrever
Que tu és a mulher que eu quero amar

Quem me dera fazer poesia
Inspirada na minha paixão
Inventar sofrimento, agonia,
Um amor de Platão

Quem me dera chamar-te de musa
Em sonetos e coisas que tais
Uma escrita solene e confusa
Com palavras a mais


Mas seu eu fosse poeta dotado
Ou se ao menos julgasse que sim
Falaria com um ar afectado
Aprenderia Latim

Só faria canções eruditas
E se as ditas ninguém entendesse
Rematava com frases bonitas
P'ro que desse e viesse



"Morte do Leiteiro".

Há pouco leite no país
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.

Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas,
seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.

Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro.
morador na Rua Namur,
empregado no entreposto
Com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma pequena mercadoria.

E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro...
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.

Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.

Mas este entrou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.

Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.

Da garrafa estilhaçada.
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue... não sei
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

A verdade é aquilo que todo o homem precisa para viver e que ele não pode obter nem adquirir de ninguém. Todo o homem deve extraí-la sempre nova do seu próprio íntimo, caso contrário ele arruina-se. Viver sem verdade é impossível. A verdade é talvez a própria vida.

Franz Kafka, in 'Conversas com Kafka'



Fernando Pessoa

Entre o sono e sonho,

Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.
Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre -
Esse rio sem fim.

-

-

MOLESKINE




Moleskine é simplesmente um notebook de capas pretas envolvido por um elástico, que foi utilizado por diversos artistas e intelectuais. Desde Van Gogh, Matisse, Céline a Hemingway, todos perpetuaram suas notas num Moleskine e através dele moldaram a cultura que herdamos.

De uma forma ou de outra, nos dias que correm várias pessoas usam este notebook, quer pela utilidade, quer pelo fascino da marca, ou talvez com a vã esperança da inspiração divina. Não contesto de forma alguma o Moleskine, pelo contrário, acho-o extremamente elegante, prático e com uma óptima qualidade. O que considero verdadeiramente hilariante é vê-lo nas mãos de pessoas que não o usam, mas passeiam-no simplesmente pelo facto de se julgarem mais eruditos por andarem com um. Assim, como quem não quer a coisa, sempre se pode dar uma de intelectual e dizer que foi o notebook de Ernest Hemingway - sempre fica bem, não?

Durante um período da minha vida, usei Moleskine - falarei sobre isto oportunamente - mas actualmente, para que conste - chamem-lhe rebeldia - prefiro o papel de 100gr de um Winsor & Newtow. Uma fase, talvez.

quarta-feira, 21 de abril de 2010




Veneza

Sobre a ponte eu estava,
Há dias, na noite cinzenta
Ao longe ouvi uma canção:
Ela pingava gotas de ouro.
Pela superfície trêmula
Gôndolas, luzes, música -
Ébria ela nadou para a escuridão…
Minha alma, um alaúde,
cantou a si, invisível e ferida,
uma canção veneziana, e segredou,
trêmula de ventura colorida.
Será que alguém a escutou?

Friedrich Nietzsche


Os teus pés


Quando não te posso contemplar
Contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
Teus pequenos pés duros,

Eu sei que te sustentam
E que teu doce peso
Sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
A duplicada púrpura
Dos teus mamilos,
A caixa dos teus olhos
Que há pouco levantaram vôo,
A larga boca de fruta,
Tua rubra cabeleira,
Pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
É só porque andaram
Sobre a terra e sobre
O vento e sobre a água,
Até me encontrarem.


Pablo Neruda

segunda-feira, 19 de abril de 2010



Elixir da Vida


" Celebro-me e canto-me,

Aquilo que assumo tu deves assumir

Pois cada átomo que a mim pertence a ti pertence também"


Walt Whitman


Flor da Paixão

Sei agora
que a paixão
é azul e coroada
como o sangue e a cabeça
das rainhas. Que tem
nome de flor
e é ímpar. Porque,
se o não fosse,
não seria paixão.

Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas"



A mulher submerge-se no banho

com a mesma doce espera

com que se aproxima do leito do amante

e se deixa fundir lentamente

na água tépida suave

Agua de carícia envolvente

que eleva os seios

e os balanceia

pontas que despertam as suas bocas vermelhas

mãos que se abrem como estrelas do mar

e navegam pensativas de um lado para o outro

e roçam de vez em quando as curvas do corpo

A cabeça é um nenúfar que se move

sobre a superfície da água

e na esperança dos olhos

crescem sonhos luminosos

que nenhum amante

poderá jamais cumprir.



Maria Wine





sábado, 17 de abril de 2010

SONETO XLIX-
É hoje: todo o ontem foi caindo
entre os dedos e os olhos de sono leve,
amanhã chegará com passos verdes:
Ninguém pára o rio da aurora.

Ninguém pára o rio de suas mãos,
os olhos de seu sonho, meu amor,
tremor é o tempo de atraso
entre a luz vertical e sol sombrio,

eo céu abre as asas sobre você
levá-lo e trazê-lo em meus braços
com cortesia, oportuna misterioso

Então eu canto um dia e da lua
o mar, o tempo, todos os planetas,
sua voz para o seu dia a pele e noite.
Pablo Neruda


sexta-feira, 16 de abril de 2010



Se eu morrer longe, em face da guerra ...

Se eu morrer longe da frente de guerra
Você chora um dia oh meu grande amor Lou
e, em seguida, minha memória vai na terra
Como um escudo explodiu na frente
Beautiful shell como a mimosa em flor

Mais tarde, esta memória que explodiu no ar
Sangue cobriu a terra com toda a minha inteira
O vale do mar e do sol passa para a próxima
A partir da primavera de frutos de ouro Baratier

Presença em todos os seres vivos esquerda e
Acendo a cor rosada de seus seios
Vou luz seus lábios e seu cabelo queima
Você não fica velho e todos os actuais
Ganhou uma nova vida sobre o destino incluiu

A inevitabilidade da minha fuga de sangue em todo o mundo
Dê um brilho mais vivo morrendo dom.
Será que a flor vermelha e fazer o mais profundo do mar
Um amor sem precedentes descer para o mundo
E vai ter mais poder em seu corpo, seu amante

Se a memória não morra lá esquecer
Lou lembra o mais puro êxtase de sua vida
"Em seus dias de chamas e apaixonado amor
Meu sangue é a fonte do futuro
E o mais bonito de ser mais feliz que você sabe
Oh meu amor, oh meu oh meu absoluta loucura só!
Guillaume Apollinaire



Oh portas do seu corpo ...

Oh portas do seu corpo
São nove e eu abri-as todas
Oh portas do seu corpo
Há nove anos e eu transformei-me
No primeiro portão
A razão é morte Clara
Ele estava lembra-se? o primeiro dia em Nice
Seu olho esquerdo, bem como uma cobra desliza
Mesmo no meu coração
E um retorno para reabrir a porta para o olho esquerdo

Na segunda porta
Minha força está morta
Ele estava lembra-se? em um abrigo em Cagnes
Seu olho direito que meu coração batia
Suas pálpebras ritmados na brisa como flores
E um retorno para reabrir a porta para o seu olhar direito

No terceiro portão
Ouça batendo a porta
E todas as minhas artérias inchadas de seu único amor
E um retorno para reabrir as portas para sua orelha esquerda

Na porta do quarto
Toda primavera, escolta
E ouviu a bela floresta é linda
Toda essa canção de amor e ninho
Tão triste para os soldados na guerra
E um retorno para reabrir as portas para sua orelha direita

No quinto portão
É minha vida que eu trago
Ele estava lembra-se? no trem voltando de Grasse
E na sombra suavemente fechada
Sua boca me disse
As palavras de condenação tão perverso e tão termo
Peço minha alma ferida
Como eu poderia ouvir sem morrer
Oh palavra tão doce tão forte que, quando eu penso no toque
E reabre a porta de sua boca

No sexto portão
Sua gravidez é de putrefação abortar
Aqui cada primavera com flores
Aqui estão as catedrais com o seu incenso
Aqui estão as suas axilas com seu cheiro divino
E eu cheiro seu cartas perfumadas
Durante horas
E que novamente reabrir a porta do lado esquerdo do seu nariz

No sétimo portão
Oh perfumes do passado que o fluxo de ar leva
As chamas deu o seu sabor salgado dos lábios do mar
Cheiro cheiro do mar do amor sob nossas janelas estava morrendo mar
E o cheiro de laranja envolvido você ama
Como já se aconchegou nos meus braços
Quieto e silencioso
E um retorno para reabrir a porta do lado direito do nariz

No oitavo portão
Dois anjos chubby tremendo tendo o cuidado de rosas
O céu requintado sua cintura elástica
E aqui estou eu, armado com um chicote feito de luar
Os amores coroado com jacinto chegar em massa.
E um retorno para reabrir as portas de sua alma

Com a nona porta
Devemos amar a si mesma
Vida da minha vida
Eu junto com você para a eternidade
E o amor perfeito e sem raiva
Chegamos a paixão pura e perversa
Como queremos
Em todo o saber ouvir todos ver todas
Eu desisti, nas profundezas secretas de seu amor
Umbrosa porta porta Oh oh corais vivos
Entre duas colunas de perfeição
E um retorno para reabrir a porta aberta mãos conhecemos tão bem
Guillaume Apollinaire:

quinta-feira, 15 de abril de 2010



Escotomas

Não sei
o que é um espírito. Ninguém
conhece a fundo a luz do seu abismo
enquanto o vento, à noite, vai abrindo
as infinitas portas de uma casa
vazia. A minha voz
procura responder a outra voz,
ao choro dos espectros que celebram
a sua missa negra, o seu eterno
sobressalto. Num ermo
da cidade magoada escuto ainda
o rumor de um oráculo,
a febre de um adeus que se prolonga
no estertor dos ponteiros de um relógio,
nesse ritmo feroz, na pulsação
do meu sangue exilado que recorda
um abrigo divino. pai nosso, que estás
entre o céu e a terra, conduz-me
ao precipício onde hibernou a alma
e ensina-me a romper a madrugada
como se a minha face fosse
um estilhaço da tua
e nela derretessem, por milagre,
estas gotas de gelo ou de crista



Fernando Pinto do Amaral

Retrato de um Amor

Iluminas
a sombra dos meus dias
neste mundo que abrimos devagar
entre o corpo e a alma, sempre mais
secretos no abismo que os devora.

Maior do que este amor nada haverá
até ao fim dos tempos: os teus olhos
respondem ao destino, à sua eterna
graça que paira sobre as nossas vidas
agora a transbordarem numa única
razão feita de luz. a tua boca
inunda a minha língua com o sabor
de todos os sentidos que mergulham
a noite numa água sem retorno.

Para ti absorvo o hálito de um verão
em cada beijo cego, surdo e mudo
respirando de súbito em uníssono:
enigma revelado num só frémito,
insónia submersa que , em silêncio,
regressa pouco a pouco aos nossos braços
afogados na espuma do seu mar.

Perto do teu sorriso há uma fonte
embriagada e pura- meu amor,
dá-me esse coração, essa primeira
raiz de todo o fogo, esse relâmpago
onde cresce para nós a flor de um grito;
segreda-me às escuras mais um sonho
antes de adormeceres sobre o meu ombro.


Fernando Pinto do Amaral

Segredo

Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome - essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.


Quando já não há nada
absolutamente nada pra dizer
e cada dia te parece apenas
uma longa e inútil sequência
de vinte e quatro horas vazias

Quando uma folha de papel
é um deserto branco já sem rosto
um firmamento sem constelação
uma página nua, uma página
muda
há dois rápidos olhos que te falam
desde sempre da terra prometida

Consegues fixá-los Não tens medo?
Vê como arde súbito o seu gelo
no fundo das pupilas
e não hesites – rouba essa vertigem
ao coração da noite
porque às vezes não há outra saída
para algumas palavras que ainda podem
ser um arco uma flecha
perto do alvo que ninguém conhece

Fernando Pinto do Amaral

quarta-feira, 14 de abril de 2010


a boémia bebida gota a gota com raiva
a boémia sorvida alegria tão breve
era então que nos ríamos do que havia de ser

uma casa cercando o bolor destes anos
o emprego roendo gota a gota levando
o que resta no fundo dessa larga memória

era então que aventura
era estar devagar nessa curva do tempo
onde a areia mais leve se perdia entre os dedos
dia a dia fugindo ansiosa e suave

era então que nos ríamos devagar sem saber
desta náusea futura que ainda havia de ser

Rui Namorado


Sei que pareço um ladrão...
Eu não tenho vistas largas
nem grande sabedoria,
mas dão-me as horas amargas
Lições de Filosofia.


Uma mosca sem valor
poisa c’o a mesma alegria
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria.


Quem me vê dirá: não presta,
nem mesmo quando lhe fale,
porque ninguém traz na testa
o selo de quanto vale.


Sei que pareço um ladrão...
mas há muitos que eu conheço
que, sem parecer o que são,
são aquilo que eu pareço.


António Aleixo








terça-feira, 13 de abril de 2010



This is the day
Of the expanding man
That shape is my shade
There where I used to stand
It seems like only yesterday
I gazed through the glass
At ramblers
Wild gamblers
That's all in the past

You call me a fool
You say it's a crazy scheme
This one's for real
I already bought the dream
So useless to ask me why
Throw a kiss and say goodbye
I'll make it this time
I'm ready to cross that fine line

I'll learn to work the saxophone
I'll play just what I feel
Drink Scotch whisky all night long
And die behind the wheel
They got a name for the winners in the world
I want a name when I lose
They call Alabama the Crimson Tide
Call me Deacon Blues

My back to the wall
A victim of laughing chance
This is for me
The essence of true romance
Sharing the things we know and love
With those of my kind
Libations
Sensations
That stagger the mind

I crawl like a viper
Through these suburban streets
Make love to these women
Languid and bittersweet
I'll rise when the sun goes down
Cover every game in town
A world of my own
I'll make it my home sweet home

This is the night
Of the expanding the man
I take one last drag
As I approach the stand
I cried when I wrote this song
Sue me if I play too long
This brother is free
I'll be what I want to be

segunda-feira, 12 de abril de 2010



Pergunta

Quem vem de longe e sabe o nome do meu lugar
e levou o caminho das conchas em mar
e dos olhos em rio
— quem vem de longe chorar por mim?

Quem sabe que eu findo de dureza
e condensa ternura em suas mãos
para a derramar em afagos
por mim?

Quem ouviu a angústia do meu brado,
sirene de um navio a vadiar no largo,
e me traz seus beijos e sua cor,
perdendo-se na bruma das madrugadas
por mim?

Quem soube das asperezas da viagem
e pediu o pão negado
e o suor ao corpo torturado,
por mim? por mim?

Quem gerou o mundo e lhe deu seu nome
e seu tamanho — imenso, imenso,
e em mim cabe?

Fernando Namora, in "Mar de Sargaços"

Fímbria de Melancolia

Fímbria de melancolia,
memória incerta da dor,
ouço-a no gravador,
no fado que não se ouvia
quando ouvia o seu clamor.

Porque era já no passado
o presente dessa hora
e que me ressoa agora
a um outro mais alongado.

Assim a dor que se sente
no outro obscuro de nós
nunca fala a nossa voz
mas de quem de nós ausente,
só a nós próprios consente
quando não estamos nós
mas mais sós do que ao estar sós.

Onde então estamos nós?

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'

domingo, 11 de abril de 2010


Mensagem

Todo o Mundo tem um Amor
E todo o Amor tem um Mundo!
Só que o meu Amor...
Não cabe em Todo o Mundo
de tão eterno...dedilhado e tão mudo...
É um Amor sem história
Nesta História sem palavras
da civilização do concreto
que destrói a vegetação
a natureza e diversidade
para restar o deserto
a cinza,a infelicidade...
e os produtos
da reacção...
Uma sociedade que vive
de electricidade estática
gerada por fricção
andamos electrizados
negativos... negativos
e não nos apercebemos de
que só usamos um grãozinho
do nosso potencial
Ignoramos a Vida...
e enchemos as Escolas
e os palcos do Mundo
de significados
que não definem
Eternidade
Sonho e Amor...
Vivemos obcecados
por ter mais que o outro
pelo grito mais histérico
histriónico...
Quantos nichos naturais
acabam para dar lugar
a um nicho de mercado?
Uma mudança de escala
a todos surpreenderia...
e veriamos o ridículo da vida
que construimos
Vivemos confusos
de palmas em palmas
sem conhecer o profundo
significado do estalido das nossas
mãos
Confusos e sem Confúcios...
andamos
sintetizados
pelos valores do efémero
do polímero e dos dias meros...
e não sabemos sequer
Ser mais e melhor...
do que quimeras !
Porquê viver
de tão louca ilusão
que acaba no mesmo segundo
em que se dispõe começar...?
E não ser revolucionário
ser contra -corrente...
ficar em casa
em vez de ir a festas
de muita gente ?
E porque havia de falar
deste meu Amor tão mudo
e eterno...etéreo ?
porque nele está a semente
o segredo do que pode ser o futuro
que está mesmo a despontar...
Não vive de monotonia
está vivo noite e dia
alimenta-se de estrelas
do Sol,do mar e do luar...
dos sonhos de quem quer sonhar...
Tem regras bem definidas
os seus ritos e desertos
é pouco exigente ao tacto
mas há tamanha ternura
e carinho e muita Sabedoria
que é difícil explicar
Não é Narciso de certeza
Nem Sísifo...mas talvez um novo
mito que será realidade
nos séculos que irão durar
Vive de sonho e puro amor
ultrapassa barreiras de betão
condensa o Mundo num minuto
para sempre perdurar
reparem...o que é o Amor banal?
má experiência afinal
dos que se tocam sem Amar
corpos-cavernas sem ternura
não são amor
são somatório bestial...
retirar dali para colocar ali
uns montes...tão ...montes!
uma praia... tão praia!
uma multidão...tão...sem nada...
e nada mais para além do
vórtice dos dias que passam
e que sugam a carne e o sangue...
por mais que se esforçem
não criam novo elemento
De sigla A de Amor
na tabela periódica
em que Tudo é tão igual...
Nem uma nova química...
do roçar de mucosas
(com ou sem protecção)
à emissão de secreção...
Tudo é monótono e
egoísta...e oportunista
e teatral e libertinário...
afinal !
É um filme dos dias
contados...
tiranizados...
Se houvesse o dia do Titanic
seriam todos os dias do ano
porque andamos às avessas
verborreicos
com rasgões nas relação
Só com desejo de ter...
inconsciente e animal
incluindo o de mandar...dominar
que só o Chaplin velhinho e humilde
fala ao coração ...de tão mudo
e ingénuo...
afinal !
Vive-se momentos corantes
de prédios berrantes
de tinta que desenha o próprio Sol....
Mestres na arte de dizer
especialistas em conquistar e reconquistar
não em cativar e dialogar...
Bonecos e palhaços modernos
luzidios sem esperança
de coisa alguma
que se não veja...
mais obesos da ideia
de sucesso
do que o sucesso
poderia jamais pesar
de tão oco e fútilmente
fruído
Momentos...
de momentos inspirados
que para outros não passam
de momentos bem pensados
eu diria bem cunhados...
Momentos em inglês
que ninguém percebe
momentos
com sabor artificial
pois Amor não é só carnal
os olhos comem sôfregos
insanos...e não procuram
a beleza de uma estrela
de Platão o ideal
só corpos cavernosos
a inflarem, a insuflarem
no consumo que se excita
no inchaço que se vê !
Hoje subi ao meu terraço
pela milésima vez
e extasiei-me de astros
de música divinal
sim... podemos ser um Deus
do alpendre da nossa casa...
ou num cantinho essencial...
escutar o amor da Natureza
multiplicar estrelas por luar
viciar-me em ar puro
que o mar tem para dar...
Viver à oriental com dois
metros quadrados
e uma tijela de arroz
Mas ser rico de Amor
de Sonho e de espaço sideral...
Liberdade...para ser livre
uma flor
um pássaro voando cada vez mais
alto e mais longe ...um poema...
um sorriso...um gesto
viver do Sonho
e gerar um dia
no sangue iniciático
Os filhos do Sonho...

quinta-feira, 8 de abril de 2010






Balada para um Homem na Multidão

Este homem que entre a multidão
enternece por vezes destacar
é sempre o mesmo aqui ou no japão
a diferença é ele ignorar.

Muitos mortos foram necessários
para formar seus dentes um cabelo
vai movido por pés involuntários
e endoidece ser eu a percebê-lo.

Sentam-no à mesa de um café
num andaime ou sob um pinheiro
tanto faz desde que se esqueça
que é homem à espera que cresça
a árvore que dá dinheiro.

Alimentam-no do ar proibido
de um sonho que não é dele
não tem mais que esse frasco de vidro
para fechar a estrela do norte.
E só o seu corpo abolido
lhe pertence na hora da morte.

Natália Correia, in "O Vinho e a Lira"

A Arte de Ser Amada

Eu sou líquida mas recolhida
no íntimo estanho de uma jarra
e em tua boca um clavicórdio
quer recordar-me que sou ária

aérea vária porém sentada
perfil que os flamingos voaram.
Pelos canteiros eu conto os gerânios
de uns tantos anos que nos separam.

Teu amor de planta submarina
procura um húmido lugar.
Sabiamente preencho a piscina
que te dê o hábito de afogar.

Do que não viste a minha idade
te inquieta como a ciência
do mundo ser muito velho
três vezes por mim rodeado
sem saber da tua existência.

Pensas-me a ilha e me sitias
de violinos por todos os lados
e em tua pele o que eu respiro
é um ar de frutos sossegados.

Natália Correia, in "O Vinho e a Lira"

quarta-feira, 7 de abril de 2010



Esta é a minha vida

é a minha alma

é o meu coração

á frente de você

porquê gastar o meu tempo

com esta canção

a dizer o que eu sei

Eu vivia com medo

chorando sozinho

deixo que o fluxo do rio

leve as lagrimas

que dos meus olhos caiem

o final é transformar um sonho


e onde havia névoa

tudo começa a clarear

Myriam valentina


terça-feira, 6 de abril de 2010


Queria ser lírico
como um xírico
dizer sem perceber
aquilo que faço
embora, no mundo da ébola
onde grilos giram
circulam
afundam
por entre terras tenras
envolvidas no desenvolvimento
onde vidas se escondem
praticando artes profanas

Queria ser alguém
viver de bem
sem ninguém provocar
manifestando apenas alegria
como se estivesse na grande festa
de família também simpática
que não tem problemas graves
apenas dezenas de amores
multiplicadas em cada réplica da vida
despojada neste espaço jocoso
onde vivem bondosos montes
de javalis e aves
em comunhão de bens

Queria ser tudo
menos um rebelde
abandonado pelos donos
como um escravo no deserto
isolado e liberto
sem ninguém p'ra ajudar
apenas oferecer seu magro corpo
ao húmus desértico
e confirmar o fim artístico
de mais uma criatura turística
que veio ao mundo de passagem
como um passageiro estrangeiro
entre mestres megalomaníacos
que não sabem mais nada
senão chorar p'lo que desejam


Domingos Carlos Pedro, Maputo, Moçambique

Mensagem

Todo o Mundo tem um Amor
E todo o Amor tem um Mundo!
Só que o meu Amor...
Não cabe em Todo o Mundo
de tão eterno...dedilhado e tão mudo...
É um Amor sem história
Nesta História sem palavras
da civilização do concreto
que destrói a vegetação
a natureza e diversidade
para restar o deserto
a cinza,a infelicidade...
e os produtos
da reacção...
Uma sociedade que vive
de electricidade estática
gerada por fricção
andamos electrizados
negativos... negativos
e não nos apercebemos de
que só usamos um grãozinho
do nosso potencial
Ignoramos a Vida...
e enchemos as Escolas
e os palcos do Mundo
de significados
que não definem
Eternidade
Sonho e Amor...
Vivemos obcecados
por ter mais que o outro
pelo grito mais histérico
histriónico...
Quantos nichos naturais
acabam para dar lugar
a um nicho de mercado?
Uma mudança de escala
a todos surpreenderia...
e veriamos o ridículo da vida
que construimos
Vivemos confusos
de palmas em palmas
sem conhecer o profundo
significado do estalido das nossas
mãos
Confusos e sem Confúcios...
andamos
sintetizados
pelos valores do efémero
do polímero e dos dias meros...
e não sabemos sequer
Ser mais e melhor...
do que quimeras !
Porquê viver
de tão louca ilusão
que acaba no mesmo segundo
em que se dispõe começar...?
E não ser revolucionário
ser contra -corrente...
ficar em casa
em vez de ir a festas
de muita gente ?
E porque havia de falar
deste meu Amor tão mudo
e eterno...etéreo ?
porque nele está a semente
o segredo do que pode ser o futuro
que está mesmo a despontar...
Não vive de monotonia
está vivo noite e dia
alimenta-se de estrelas
do Sol,do mar e do luar...
dos sonhos de quem quer sonhar...
Tem regras bem definidas
os seus ritos e desertos
é pouco exigente ao tacto
mas há tamanha ternura
e carinho e muita Sabedoria
que é difícil explicar
Não é Narciso de certeza
Nem Sísifo...mas talvez um novo
mito que será realidade
nos séculos que irão durar
Vive de sonho e puro amor
ultrapassa barreiras de betão
condensa o Mundo num minuto
para sempre perdurar
reparem...o que é o Amor banal?
má experiência afinal
dos que se tocam sem Amar
corpos-cavernas sem ternura
não são amor
são somatório bestial...
retirar dali para colocar ali
uns montes...tão ...montes!
uma praia... tão praia!
uma multidão...tão...sem nada...
e nada mais para além do
vórtice dos dias que passam
e que sugam a carne e o sangue...
por mais que se esforçem
não criam novo elemento
De sigla A de Amor
na tabela periódica
em que Tudo é tão igual...
Nem uma nova química...
do roçar de mucosas
(com ou sem protecção)
à emissão de secreção...
Tudo é monótono e
egoísta...e oportunista
e teatral e libertinário...
afinal !
É um filme dos dias
contados...
tiranizados...
Se houvesse o dia do Titanic
seriam todos os dias do ano
porque andamos às avessas
verborreicos
com rasgões nas relação
Só com desejo de ter...
inconsciente e animal
incluindo o de mandar...dominar
que só o Chaplin velhinho e humilde
fala ao coração ...de tão mudo
e ingénuo...
afinal !
Vive-se momentos corantes
de prédios berrantes
de tinta que desenha o próprio Sol....
Mestres na arte de dizer
especialistas em conquistar e reconquistar
não em cativar e dialogar...
Bonecos e palhaços modernos
luzidios sem esperança
de coisa alguma
que se não veja...
mais obesos da ideia
de sucesso
do que o sucesso
poderia jamais pesar
de tão oco e fútilmente
fruído
Momentos...
de momentos inspirados
que para outros não passam
de momentos bem pensados
eu diria bem cunhados...
Momentos em inglês
que ninguém percebe
momentos
com sabor artificial
pois Amor não é só carnal
os olhos comem sôfregos
insanos...e não procuram
a beleza de uma estrela
de Platão o ideal
só corpos cavernosos
a inflarem, a insuflarem
no consumo que se excita
no inchaço que se vê !
Hoje subi ao meu terraço
pela milésima vez
e extasiei-me de astros
de música divinal
sim... podemos ser um Deus
do alpendre da nossa casa...
ou num cantinho essencial...
escutar o amor da Natureza
multiplicar estrelas por luar
viciar-me em ar puro
que o mar tem para dar...
Viver à oriental com dois
metros quadrados
e uma tijela de arroz
Mas ser rico de Amor
de Sonho e de espaço sideral...
Liberdade...para ser livre
uma flor
um pássaro voando cada vez mais
alto e mais longe ...um poema...
um sorriso...um gesto
viver do Sonho
e gerar um dia
no sangue iniciático
Os filhos do Sonho...

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O Adeus do Génio


Que Feliz Destino o Meu

MOTE

«Que feliz destino o meu
Desde a hora em que te vi;
Julgo até que estou no céu
Quando estou ao pé de ti.»

GLOSAS

Se Deus te deu, com certeza,
Tanta luz, tanta pureza,
P'rò meu destino ser teu,
Deu-me tudo quanto eu queria
E nem tanto eu merecia...
Que feliz destino o meu!

Às vezes até suponho
Que vejo através dum sonho
Um mundo onde não vivi.
Porque não vivi outrora
A vida que vivo agora
Desde a hora em que te vi.

Sofro enquanto não te veja
Ao meu lado na igreja,
Envolta num lindo véu.
Ver então que te pertenço,
Oh! Meu Deus, quando assim penso,
Julgo até que 'stou no céu.

É no teu olhar tão puro
Que vou lendo o meu futuro,
Pois o passado esqueci;
E fico recompensado
Da perda desse passado
Quando estou ao pé de ti.

António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..."


Desporto e Pedagogia

I

Diz ele que não sei ler
Isso que tem? Cá na aldeia
Não se arranjam dúzia e meia
Que saibam ler e escrever.

II

P'ra escolas não há bairrismo,
Não há amor nem dinheiro.
Por quê? Porque estão primeiro
O Futebol e o Ciclismo!

III

Desporto e pedagogia
Se os juntassem, como irmãos,
Esse conjunto daria,
Verdadeiros cidadãos!
Assim, sem darem as mãos,
O que um faz, outro atrofia.

IV

Da educação desportiva,
Que nos prepara p'ra vida,
Fizeram luta renhida
Sem nada de educativa.

V

E o povo, espectador em altos gritos,
Provoca, gesticula, a direito e torto,
Crendo assim defender seus favoritos
Sem lhe importar saber o que é desporto.

VI

Interessa é ganhar de qualquer maneira.
Enquanto em campo o dever se atropela,
Faz-se outro jogo lá na bilheiteira,
Que enche os bolsinhos aos que vivem dela.

VII

Convém manter o Zé bem distraído
Enquanto ele se entrega à diversão,
Não pode ver por quantos é comido
E nem se importa que o comam, ou não.

VIII

E assim os ratos vão roendo o queijo
E o Zé, sem ver que é palerma, que é bruto,
De vez em quando solta o seu bocejo,
Sem ter p'ra ceia nem pão, nem conduto.

António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..."
Rasgo minha carne
Tiro as máscaras
Mergulho fundo, me reinvento
Gata com sete vidas
Caio em pé e não me deito
Sou felina, sou mulher
Sou teu desejo e segredo
Perturbo teu silêncio
Me escondo atrás da lua
Me desapego
Apago pegadas e sonetos
Sou dança e cantiga
Não tenho medo
Reconstruo minha vida
Crio meu caminho
Sigo em frente
Jogando versos ao vento

Myriam Valentina


A Torpe Sociedade onde Nasci

I

Ao ver um garotito esfarrapado
Brincando numa rua da cidade,
Senti a nostalgia do passado,
Pensando que já fui daquela idade.

II

Que feliz eu era então e que alegria...
Que loucura a brincar, santo delírio!...
Embora fosse mártir, não sabia
Que o mundo me criava p'ra o martírio!

III

Já quando um homenzinho, é que senti
O dilema terrível que me impôs
A torpe sociedade onde nasci:
— De ser vítima humilde ou ser algoz...

IV

E agora é o acaso quem me guia.
Sem esperança, sem um fim, sem uma fé,
Sou tudo: mas não sou o que seria
Se o mundo fosse bom — como não é!

V

Tuberculoso!... Mas que triste sorte!
Podia suicidar-me, mas não quero
Que o mundo diga que me desespero
E que me mato por ter medo à morte...

António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..."

domingo, 4 de abril de 2010


London, London
Caetano Veloso
Composição: Caetano Veloso
I'm wandering round and round, nowhere to go
I'm lonely in London, London is lovely so
I cross the streets without fear
Everybody keeps the way clear
I know I know no one here to say hello
I know they keep the way clear
I am lonely in London without fear
I'm wandering round and round, nowhere to go
While my eyes go looking for flying saucers in the sky (2x)
Oh Sunday, Monday, Autumn pass by me
And people hurry on so peacefully
A group approaches a policeman
He seems so pleased to please them
It's good at least, to live and I agree
He seems so pleased, at least
And it's so good to live in peace
And Sunday, Monday, years, and I agree

While my eyes go looking for flying saucers in the sky (2x)
I choose no face to look at, choose no way
I just happen to be here, and it's ok

Pergunta

Quem vem de longe e sabe o nome do meu lugar
e levou o caminho das conchas em mar
e dos olhos em rio
— quem vem de longe chorar por mim?

Quem sabe que eu findo de dureza
e condensa ternura em suas mãos
para a derramar em afagos
por mim?

Quem ouviu a angústia do meu brado,
sirene de um navio a vadiar no largo,
e me traz seus beijos e sua cor,
perdendo-se na bruma das madrugadas
por mim?

Quem soube das asperezas da viagem
e pediu o pão negado
e o suor ao corpo torturado,
por mim? por mim?

Quem gerou o mundo e lhe deu seu nome
e seu tamanho — imenso, imenso,
e em mim cabe?

Fernando Namora, in "Mar de Sargaços"

Poema Cansado de Certos Momentos

Foi-se tudo
como areia fina escoada pelos dedos.
Mãe! aqui me tens,
metade de mim,
sem saber que metade me pertence.
Aqui me tens,
de gestos saqueados,
onde resta a saudade de ti
e do teu mundo de medos.
Meus braços, vê-os, estão gastos
de pedir luz
e de roubar distâncias.
Meus braços
cruzados
em cruz de calvário dos meus degredos.
Ai que isto de correr pela vida,
dissipando a riqueza que me deste,
de levar em cada beijo
a pureza que pariste e embalaste,
ai, mãe, só um louco ou um Messias
estendendo a face de justo

para os homens cuspirem o fel das veias,
só um louco, ou um poeta ou um Cristo
poderá beijar as rosas que os espinhos sangram
e, embora rasgado, beber o perfume
e continuar cantando.
Mãe! tu nunca previste
as geadas e os bichos
roendo os campos adubados
e o vizinho largando a fúria dos rebanhos
pela flor menina dos meus prados.
E assim, geraste-me despido
como as ervas,
e não olhaste os pegos nem as cobras,
verdes, viscosas, espreitando dos nichos.
De mão nua, entregaste-me ao destino.
Os anjos ficaram lá em cima, cobardes, ansiosos.
E sem elmos ou gibões,
nem lutei nem vivi:
fiquei quieto, absorto, em lágrimas
— e lá ao fundo esperavam-me valados
e chacais rancorosos.

Mãe! aqui me tens,
restos de mim.
Guarda-me contigo agora,
que és tu a minha justiça e o exílio
do perdido e do achado.
Guarda-me contigo agora
e adormece-me as feridas
com as guitarras do fado.

Mas caberá no teu regaço
o fantasma do perdido?

Fernando Namora, in "Mar de Sargaços"

Profecia

Nem me disseram ainda
para o que vim.
Se logro ou verdade,
se filho amado ou rejeitado.
Mas sei
que quando cheguei
os meus olhos viram tudo
e tontos de gula ou espanto
renegaram tudo
— e no meu sangue veias se abriram
noutro sangue...
A ele obedeço,
sempre,
a esse incitamento mudo.
Também sei
que hei-de perecer, exangue,
de excesso de desejar;
mas sinto,
sempre,
que não posso recuar.

Hei-de ir contigo
bebendo fel, sorvendo pragas,
ultrajado e temido,
abandonado aos corvos,
com o pus dos bolores
e o fogo das lavas.
Hei-de assustar os rebanhos dos montes
ser bandoleiro de estradas.
— Negro fado, feia sina,
mas não sei trocar a minha sorte!

Não venham dizer-me
com frases adocicadas
(não venham que os não oiço)
que levo caminho errado,
que tenho os caminhos cerrados
à minha febre!
Hei-de gritar,
cair, sofrer
— eu sei.
Mas não quero ter outra lei,
outro fado, outro viver.
Não importa lá chegar...
O que eu quero é ir em frente
sem loas, ópios ou afagos
dos lábios que mentem.

É esta, não é outra, a minha crença.
Raios vos partam, vós que duvidais,
raios vos partam, cegos de nascença!

Fernando Namora, in "Relevos"

sábado, 3 de abril de 2010

CIDADE ONDE HABITO


Solidão

Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso

Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

Para Ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"


Fui Sabendo de Mim

Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia

fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

Solidão

Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso

Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"



Horário do Fim

morre-se nada
quando chega a vez

é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos

morre-se tudo
quando não é o justo momento

e não é nunca
esse momento


Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

sexta-feira, 2 de abril de 2010



Tenho Mais Almas que Uma

Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu 'screvo.

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa


Estas Almas Incertas

Quero um mal de morte
A estas almas incertas.
Tortura-as a honra que vos fazem,
Pesam-lhes, dão-lhe vergonha os seus louvores.
Porque não vivo
Preso à sua trela,
Saúdam-me com um olhar agridoce.
Onde passa uma inveja sem esperança.

Ah! Porque não me amaldiçoam!
Porque não me viram francamente as costas!
Aqueles olhos suplicantes e extraviados
Hão-de enganar-se sempre a meu respeito.

Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"


Comunhão

Reprimirei meu pranto!... Considera
Quantos, minh'alma, antes de nós vagaram,
Quantos as mãos incertas levantaram
Sob este mesmo céu de luz austera!...

— Luz morta! amarga a própria primavera! —
Mas seus pacientes corações lutaram,
Crentes só por instinto, e se apoiaram
Na obscura e heróica fé, que os retempera...

E sou eu mais do que eles? igual fado
Me prende á lei de ignotas multidões. —
Seguirei meu caminho confiado,

Entre esses vultos mudos, mas amigos,
Na humilde fé de obscuras gerações,
Na comunhão dos nossos pais antigos.

Antero de Quental, in "Sonetos"

Anima Mea

Estava a Morte ali, em pé, diante,
Sim, diante de mim, como serpente
Que dormisse na estrada e de repente
Se erguesse sob os pés do caminhante.

Era de ver a fúnebre bachante!
Que torvo olhar! que gesto de demente!
E eu disse-lhe: «Que buscas, impudente,
Loba faminta, pelo mundo errante?»

— Não temas, respondeu (e uma ironia
Sinistramente estranha, atroz e calma,
Lhe torceu cruelmente a boca fria).

Eu não busco o teu corpo... Era um troféu
Glorioso de mais... Busco a tua alma —
Respondi-lhe: «A minha alma já morreu!»

Antero de Quental, in "Sonetos"

quinta-feira, 1 de abril de 2010



O Poema

O poema não é o canto
que do grilo para a rosa cresce.
O poema é o grilo
é a rosa
e é aquilo que cresce.

É o pensamento que exclui
uma determinação
na fonte donde ele flui
e naquilo que descreve.
O poema é o que no homem
para lá do homem se atreve.

Os acontecimentos são pedras
e a poesia transcendê-las
na já longínqua noção
de descrevê-las.

E essa própria noção é só
uma saudade que se desvanece
na poesia. Pura intenção
de cantar o que não conhece.

Natália Correia, in "Poemas (1955)"

Ode à Paz

Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,

Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!

Natália Correia, in "Inéditos (1985/1990)"


Elegia dos Amantes Lúcidos

Na girândola das árvores (e não há quem as detenha)
Deixa de fora a tarde o vermelho que a tinge.
Se ao menos tu ficasses na pausa que desenha
O contorno lunar da noite que te finge!

Se ao menos eu gelasse uma corda do vento
para encontrar a forma exacta dum violino
Que fosse a sensibilidade deste pensamento
Com que a minha sombra vai pensando o meu destino

E não houvesse o sono dum telhado
Entre ter de haver eu e haver o tecto;
E a eternidade não estivesse ao lado
A colocar-nos nas costas as asas dum insecto

Meu amor, meu amor, teu gesto nasce
Para partir de ti e ser ao longe
A cor duma cidade que nos pasce
Como a ausência de deus pastando um monge

Ah, se uma súbita mão na hora a pique
Tangendo harpas geladas por segredos
Desprendesse uma aragem de repiques
Destes sinos parados pelo medo!

Mas só porque vieste fez-se tarde,
Ou é a vida que nasce já tardia
Como uma estrela que se acende e arde
Porque não cabe na rapidez do dia?

Nem homem nem mulher. Só a moeda antiga:
Uma inflação de deuses que não pode parar
Como um pássaro cego à nora da intriga
Que é a morte no centro connosco a circular.

Será o mesmo tempo que nos cabe?
Talvez sejas a raça prematura
Duma gota de orvalho que se há-de
Negar à minha sede desértica e futura.

Como o brilho dum sol partido ao meio
Damos luz pela nostalgia da metade.
Partes para ser gaivota no meu seio.
Mas não trazes no bico uma cidade.

Aqui pousou um pássaro de lume
Que deixou um voo subterrâneo
Na repetida vibração do gume
Que cada hora traz à lâmina do crânio.

Teus dedos num relógio como a picada duma abelha
A fabricar o mel da estação perdida!
Que quanto a primavera um rouxinol na telha
É toda a melodia que traz na unha a vida.

O navio tem dois extremos ermos:
Os cabelos para Vénus e os pés para Marte.
Mas a viagem é o mar com a terra a ver-nos.
E com lenços à vista ninguém parte.

Ah, se ao menos eu pudesse agora erguer-me
Como uma pedra pelas minhas mãos futuras
E ficasse para sempre a aquecer-me
Ao sol que cega efémeras criaturas!

Se soltasses as aves da rotina
E de um jorro de deuses abrisses a comporta
E reclinada em tua espádua genuína
Eu entrasse num céu sem ter que achar a porta!

Se tu viesses cavaleiro branco
Orvalhado pela manhã do meu instinto.
E ficasses a chamar-me como um canto
No porvir do nosso último recinto!

Se ficássemos espuma de Maio cor-de-rosa
Nas praias donde Maio se retira,
Enrolados nos panos duma paisagem silenciosa
Que fosse a pura sonoridade da ausência duma lira!

Ah, as sementes que te exigem em declive
Entre abismos onde nunca te despenhas
E esfumados voos em que te embebes e revives
O que de ti já pousou no cume das montanhas!

Inútil decifrarmos este oráculo de ave absorta
Na incontinência do voo que a abrasa.
Se houver um palácio sem porta, talvez seja a porta.
Se houver uma casa sem tecto, talvez seja a casa.

Natália Correia, in "Passaporte"