sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Helena Frontini



Vento enamorado

Eolo brinca de ser meu namorado

Arrepia meu cabelo e fecha meus olhos.

Passa sua lixa arenosa na suave pele nua

Levanta minha saia e beija minha boca

Num despudor de garoto safado.

Pulsa o vento brejeiro e apaixonado

Gemendo com sua voz rouca.

Empurra o mar para afagos nas ancas

Atrevida marola lambendo as coxas

Ao comando do deus da impulsão.

Fujo arredia do ardor abusado

Antes que me leve despida e tonta

Em seu ventre ladrão.

-Helena Frontini-

Tati Bernardes


Sabrina Garras

 

 

“— Garçom… que dose de mentira você tem?

— Temos: Eu te amo, nunca vou te deixar, eu quero você comigo, sinto saudades e também temos uma que anda saindo bastante: “pode confiar em mim”.

— Ah… Manda todas que hoje eu quero me iludir.”

Tati Bernardes

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Amelie

Margusta


Hoje não me apetece ser forte.
Deixem-me chorar!
Desventrar todas as feridas e mágoas
tatuadas a fogo nas vísceras da alma.
Deixem-me chorar,
não sou essa fortaleza edificada,
onde o sorriso sempre floresce nas janelas...
Hoje sou o sal da água, no azul a alastrar,
gaivota sem peito para nidificar ,
suspiro de luz, sopro de velas,
porto sem abrigo, tempestade de mar...
Deixem-me chorar!!!


©Margusta.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

DANIEL DEL ORFANO

DANIEL DEL ORFANO E A PERSPECTIVA DE UM TRANSEUNTE

 

"Tento captar a visão romântica mas realista da vida cotidiana..."

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Nascido e criado em Nova York Daniel Del Orfano estudou na prestigiada Knox Boarding School e ensinou a arte da pintura para crianças de todas as idades.

O artista começou a retratar a vida cotidiana a partir da perspectiva de um transeunte, testemunhando os momentos íntimos da vida. Isto o levou a uma quase autobiografia visual.

"Eu misturo a antiga integridade artística com a percepção moderna. Minhas pinturas retratam a vida, não como ela pode ser, mas como é lembrada; um instante, não de um momento em particular, mas de uma memória global. É a beleza da emoção sentida em um momento exato que eu tento retratar. Tento captar a visão romântica mas realista da vida cotidiana, que é a raiz de todo o meu trabalho."

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A imagem simbólica que Daniel mais retrata é o guarda-chuva vermelho, por dois motivos: em primeiro lugar porque quando caminhava pelas ruas de Nova York era surpreendido por tempestades e sempre se encontrava desprotegido, sua salvação eram os vendedores de esquina (isso lhe trouxe a ideia de que o guarda-chuva simbolizava proteção e segurança); em segundo lugar a cor vermelha, sendo utilizada para retratar a paixão e a determinação.

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terça-feira, 14 de agosto de 2012

Melody Gardot–Lisboa

Lisboa
Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores...
À força de diferente, isto é monótono.
Como à força de sentir, fico só a pensar.

Se, de noite, deitado mas desperto,
Na lucidez inútil de não poder dormir,
Quero imaginar qualquer coisa
E surge sempre outra (porque há sono,
E, porque há sono, um bocado de sonho),
Quero alongar a vista com que imagino
Por grandes palmares fantásticos,
Mas não vejo mais,
Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras,
Que Lisboa com suas casas
De várias cores.
Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa.
A força de monótono, é diferente.
E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.
Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Lisboa com suas casas
De várias cores.
Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Oscar Wilde

Oscar Wilde: o amor que não ousa dizer o seu nome

 

Estamos no ano de 1900. Sebastian Melmoth percorre a cidade de Paris em andrajos. Está triste, desolado e sobretudo pobre. As parcas condições financeiras não lhe permitem voltar à sua verdadeira paixão de sempre: a escrita. Viciado em absinto, Sebastian morre subitamente num quarto de hotel barato a 30 de Novembro. Acabava de morrer um dos mais brilhantes escritores de sempre: Oscar Wilde.

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Retrato de Oscar Wilde.

«O Progresso é a realização das Utopias»

Filho de um médico, Sir William Wilde, e de uma poetisa e jornalista, Jane Francesca Wilde, Oscar Wilde nasce em Dublin, Irlanda, a 16 de Outubro de 1854. Fruto do ambiente intelectual de infância desenvolve cedo o gosto pelo estudo de obras clássicas gregas. Em 1874, Oscar recebe a medalha de Ouro no Colégio de Berkeley pelos seus excelentes resultados na disciplina de Língua Grega. Transfere-se para Oxford, onde a sua escrita poética começa a dar frutos. Ganha o prémio Newdigate pelo seu poema «Ravenna». Depois de concluir o curso em Estudos Clássicos, vai viver para Londres com o seu amigo Frank Miles, um pintor de retratos.

Em 1882 parte para os Estados Unidos da América como líder do movimento por ele criado: o Movimento Estético. Este movimento pretendia eleger o Belo como única solução contra o cinzentismo intelectual e social que a sociedade industrial e vitoriana evidenciava. A fama começava a surgir. Depois de uma produtiva viagem intelectual a Paris, Oscar Wilde casa-se com Constanze Lloyd em 1884. O casal muda-se para o bairro de Chelsea em Londres, tendo dois filhos.

Oscar Wilde é já um exemplo de elegância e glamour nos seus encontros sociais. É visto como um excêntrico, sedutor, usando roupas sofisticadas e ousadas para a época. É cada vez mais respeitado pelo meio literário inglês. Em 1891 escreve o seu único romance: «O Retrato de Dorian Gray», um dos mais aclamados livros da literatura inglesa. Rico, respeitado e famoso, Wilde vê o mundo à sua volta desabar quando se envolve afectivamente com o jovem Lord Alfred Douglas. Os rumores acerca da sua homossexualidade já circulavam por Londres, mas de modo subtil. O pai de Lord Alfred Douglas, o chamado Marquês de Queensberry, apercebe-se do sucedido e através da sua influência e poder instaura um processo em tribunal a Wilde. Na época Vitoriana, a homossexualidade era violentamente reprimida com pena de prisão.

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Retrato de Oscar Wilde.

Oscar Wilde está ciente de que este caso amoroso poderá arruinar-lhe a reputação e a consolidada carreira de escritor e tenta por todos os meios demover o marquês, processando-o por difamação. Sem sucesso. Novas provas são apresentadas, o caso espalha-se na opinião pública e o marquês leva mesmo Oscar Wilde a tribunal. É condenado a 2 anos de prisão com trabalhos forçados por “cometer actos imorais com diversos rapazes”.

Durante este período todos os seus bens são vendidos para pagamento de custas judiciais e os seus livros retirados das livrarias. O amor que Oscar sente por Lord Alfred Douglas ajuda-o a suportar a dolorosa estadia na prisão, mas a sua saúde ressente-se e a sua reputação é manchada irremediavelmente. Amargurado contra a injustiça mas servindo-se da paixão como combustível contra a escuridão existencial em que se encontra, Oscar escreve a célebre «Balada do Cárcere de Reading», a comovente «De Profundis», uma carta de amor dirigida a Lord Alfred Douglas e o visionário «A Alma do Homem sob o Socialismo».

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© Estátua colorida de Oscar Wilde na Praça Merrion, Dublin (Wikicommons, Sandro Schachner).

Com a saúde arruinada pelas degradantes condições da prisão e a alma negra pelo seu amor proibido, Oscar Wilde é libertado a 18 de Maio de 1897. Muda-se para França completamente arruinado financeiramente. O retorno à sua carreira literária é uma miragem. Adopta o pseudónimo Sebastian Melmoth como forma de fugir à conotação negativa que o seu verdadeiro nome tem na sociedade. Vicia-se em absinto e muda constantemente de quarto de hotel, para locais cada vez mais degradantes. A 30 de Novembro de 1900 um ataque de meningite é-lhe mortal. Oscar Wilde morre na pobreza e no esquecimento em Paris.

A sua obra genial é doce, visionária e irreverente. Extremamente inteligente e sensível, Wilde legou-nos escritos polvilhados de amor, liberdade e anti-convencionalismos. Tornou-se uma referência literária do século XIX. O Progresso é a realização das Utopias, e Oscar Wilde sabia-o. Ninguém irá preso hoje em dia, numa sociedade civilizada, por amar alguém do mesmo sexo.

Aleah

Água e Vinho
Estou perdido sem você
Mas agora eu também estou perdido com você
Como posso saber o que fazer
Quando o que você me diz não é verdade
Aprenda a distinguir
É o que você diz
Quando na minha fúria
Eu me afasto
Mostre-me seu sinal
Água e vinho
Eu preciso que você seja
Mais do que uma voz em mim
Mostre-me seu rosto
Ou pelo menos alguma prova de sua graça
Eu preciso que você seja
Mais do que uma luz em mim
Pelo menos hoje...
Abrace-me na minha dor
Mas você tem causado a mesma
Por que você não pratica o que prega?
Que bem veio disso, a maneira que você ensina?
Aprenda a distinguir
É o que você diz
Quando na minha fúria
Eu me afasto
Deixe-me em paz
Deixe-me ser sem minhas esperanças
Sem meus medos
Não, não abandone-me, deixe-me
Veja a verdade
Prove minhas lágrimas, minhas lágrimas amargas
Causadas por você...

Papermaps

sábado, 11 de agosto de 2012

O poeta

O poeta

A vida do poeta tem um ritmo diferente

É um contínuo de dor angustiante.

O poeta é o destinado do sofrimento

Do sofrimento que lhe clareia a visão de beleza

E a sua alma é uma parcela do infinito distante

O infinito que ninguém sonda e ninguém compreende.

Ele é o etemo errante dos caminhos

Que vai, pisando a terra e olhando o céu

Preso pelos extremos intangíveis

Clareando como um raio de sol a paisagem da vida.

O poeta tem o coração claro das aves

E a sensibilidade das crianças.

O poeta chora.

Chora de manso, com lágrimas doces, com lágrimas tristes

Olhando o espaço imenso da sua alma.

O poeta sorri.

Sorri à vida e à beleza e à amizade

Sorri com a sua mocidade a todas as mulheres que passam.

O poeta é bom.

Ele ama as mulheres castas e as mulheres impuras

Sua alma as compreende na luz e na lama

Ele é cheio de amor para as coisas da vida

E é cheio de respeito para as coisas da morte.

O poeta não teme a morte.

Seu espírito penetra a sua visão silenciosa

E a sua alma de artista possui-a cheia de um novo mistério.

A sua poesia é a razão da sua existência

Ela o faz puro e grande e nobre

E o consola da dor e o consola da angústia.

A vida do poeta tem um ritmo diferente

Ela o conduz errante pelos caminhos, pisando a terra e olhando o céu

Preso, eternamente preso pelos extremos intangíveis.

Vinicius de Moraes

 

 

FINA TORRES

 

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Meditação

Meditação

Foto de: Matthieu Belin


Às vezes, quando a noite vem caindo,
Tranquilamente, sossegadamente,
Encosto-me à janela e vou seguindo
A curva melancólica do Poente.
Não quero a luz acesa. Na penumbra,
Pensa-se mais e pensa-se melhor.
A luz magoa os olhos e deslumbra,
E eu quero ver em mim, ó meu amor!
Para fazer exame de consciência
Quero silêncio, paz, recolhimento
Pois só assim, durante a tua ausência,
Consigo libertar o pensamento.
Procuro então aniquilar em mim,
A nefasta influência que domina
Os meus nervos cansados; mas por fim,
Reconheço que amar-te é minha sina.
Longe de ti atrevo-me a pensar
Nesse estranho rigor que me acorrenta:
E tenho a sensação do alto mar,
Numa noite selvagem de tormenta.
Tens no olhar magias de profeta
Que sabe ler no céu, no mar, nas brasas...
Adivinhas... Serei a borboleta
Que vendo a luz deixa queimar as asas.
No entanto — vê lá tu!— Eu não lamento
Esta vontade que se impõe à minha...
Nem me revolto... cedo ao encantamento...
— Escrava que não soube ser Rainha!

Fernanda de castro

Foto de: Matthieu Belin

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

E NÃO VIVERAM FELIZES PARA SEMPRE

 


Tudo começa com "Era uma vez" e termina em "E foram felizes para sempre". O desenrolar da história perde-se num momento, numa ocasião. O interruptor da luz impulsiona a narrativa e, depois de para sempre, há o mergulho na escuridão. O fim da história. Para sempre é muito tempo. Que promessa é esta? Que certeza? Como pode um final feliz terminar com um ponto final? Onde estão as vírgulas, as interrogações das incertezas e as reticências do silêncio? Conheça o disparo do fotógrafo Thomas Czarnecki sobre os contos de fada.



conto, Czarnecki, de, fadas, morbido, Thomas, tragedia
© Thomas Czarnecki, "The little Mermaid - On the other shore".
Conto. Não conto. Conto? Este conto não tem um final feliz. O seu fim é trágico, o ambiente é decadente, obscuro e mórbido. As personagens são figuras femininas da Disney que o leitor talvez reconheça como princesas. O tempo, esse, se mantém: "era uma vez..." E o fim? Como seria de esperar, é “Não viveram felizes para sempre”.
"From Enchantement to Down" ("Do encantamento à queda") é o disparo lançado pela objectiva do fotógrafo Thomas Czarnecki, que torna os contos de fada da Disney não num sonho, mas num pesadelo. Czarnecki estudou publicidade em Saint-Luc, na Bélgica, e é o atual diretor de arte da Leo Burnett, em Paris, continuando a trabalhar como fotógrafo freelancer.
O choque entre a inocência dos contos de fadas e a realidade sombria da cultura foram a alavanca que levaram o fotógrafo às encruzilhadas da inocência e doçura das personagens da Disney bem como a recriar um novo universo. Um campo imaginário com um destino fatal, de personagens sem encanto, e o confronto do universo ingénuo e inocente dos contos de fadas com a realidade. O mistério está no autor da tragédia, que não se encontra presente.
conto, Czarnecki, de, fadas, morbido, Thomas, tragedia
© Thomas Czarnecki, "Cinderella - Too fast".
As doze badaladas da meia noite não assinalavam simplesmente a fuga da Cinderela. A pressa determinou a sua morte, sendo assinalada pela perda do sapato.
conto, Czarnecki, de, fadas, morbido, Thomas, tragedia
© Thomas Czarnecki, "Snow White - My sweet Prince".
A Branca de Neve não foi salva pelo príncipe. Terá sido verdadeiro e decisivo o golpe da rainha? O mesmo acontece com o Capuchinho Vermelho. Atacada pelo lobo? Imagens sinistras, cenas de crime e quartos abandonados traduzem a inquietação da narrativa.
conto, Czarnecki, de, fadas, morbido, Thomas, tragedia
© Thomas Czarnecki, "The little red ridding hood - Happy end".
conto, Czarnecki, de, fadas, morbido, Thomas, tragedia
© Thomas Czarnecki, "Spleeping Beauty - Naughty girl".
A Bela Adormecida, afinal, foi vítima da sua desobediência e comportamentos impróprios. A maldição estava incutida nela própria e não no exterior.
conto, Czarnecki, de, fadas, morbido, Thomas, tragedia
© Thomas Czarnecki, "Pocahontas - One more trophy".
Pocahontas era apenas um mito romântico. Thomas Czarnecki retrata-a como um troféu de alguém – uma vitória que viola os princípios da ética e é fortemente desencorajada.
conto, Czarnecki, de, fadas, morbido, Thomas, tragedia
© Thomas Czarnecki, "The Beauty and the Beast - Not so romantic".
conto, Czarnecki, de, fadas, morbido, Thomas, tragedia
© Thomas Czarnecki, "Jasmine - One last wish".
A Bela e a Fera ficaram aquém do romantismo, a Jasmine foi intoxicada com o seu último desejo, a Pequena Sereia morreu na praia e a ambição e curiosidade da Alice no Pais das Maravilhas aprisionaram-na a uma caverna sombria. O símbolo da sua curiosidade, o coelho branco, jaz morto.
conto, Czarnecki, de, fadas, morbido, Thomas, tragedia
© Thomas Czarnecki, "Alice - just a trap".
As fotografias de Thomas Czarnecki são o último suspiro dos contos de fadas, questionando as suas promessas e profecias.
Leia mais: http://obviousmag.org/archives/2012/06/e_nao_viveram_felizes_para_sempre.html#ixzz22oK2kwri

Tudo começa com "Era uma vez" e termina em "E foram felizes para sempre". O desenrolar da história perde-se num momento, numa ocasião. O interruptor da luz impulsiona a narrativa e, depois de para sempre, há o mergulho na escuridão. O fim da história. Para sempre é muito tempo. Que promessa é esta? Que certeza? Como pode um final feliz terminar com um ponto final? Onde estão as vírgulas, as interrogações das incertezas e as reticências do silêncio? Conheça o disparo do fotógrafo Thomas Czarnecki sobre os contos de fada.



conto, Czarnecki, de, fadas, morbido, Thomas, tragedia
© Thomas Czarnecki, "The little Mermaid - On the other shore".
Conto. Não conto. Conto? Este conto não tem um final feliz. O seu fim é trágico, o ambiente é decadente, obscuro e mórbido. As personagens são figuras femininas da Disney que o leitor talvez reconheça como princesas. O tempo, esse, se mantém: "era uma vez..." E o fim? Como seria de esperar, é “Não viveram felizes para sempre”.
"From Enchantement to Down" ("Do encantamento à queda") é o disparo lançado pela objectiva do fotógrafo Thomas Czarnecki, que torna os contos de fada da Disney não num sonho, mas num pesadelo. Czarnecki estudou publicidade em Saint-Luc, na Bélgica, e é o atual diretor de arte da Leo Burnett, em Paris, continuando a trabalhar como fotógrafo freelancer.
O choque entre a inocência dos contos de fadas e a realidade sombria da cultura foram a alavanca que levaram o fotógrafo às encruzilhadas da inocência e doçura das personagens da Disney bem como a recriar um novo universo. Um campo imaginário com um destino fatal, de personagens sem encanto, e o confronto do universo ingénuo e inocente dos contos de fadas com a realidade. O mistério está no autor da tragédia, que não se encontra presente.
conto, Czarnecki, de, fadas, morbido, Thomas, tragedia
© Thomas Czarnecki, "Cinderella - Too fast".
As doze badaladas da meia noite não assinalavam simplesmente a fuga da Cinderela. A pressa determinou a sua morte, sendo assinalada pela perda do sapato.
conto, Czarnecki, de, fadas, morbido, Thomas, tragedia
© Thomas Czarnecki, "Snow White - My sweet Prince".
A Branca de Neve não foi salva pelo príncipe. Terá sido verdadeiro e decisivo o golpe da rainha? O mesmo acontece com o Capuchinho Vermelho. Atacada pelo lobo? Imagens sinistras, cenas de crime e quartos abandonados traduzem a inquietação da narrativa.
conto, Czarnecki, de, fadas, morbido, Thomas, tragedia
© Thomas Czarnecki, "The little red ridding hood - Happy end".
conto, Czarnecki, de, fadas, morbido, Thomas, tragedia
© Thomas Czarnecki, "Spleeping Beauty - Naughty girl".
A Bela Adormecida, afinal, foi vítima da sua desobediência e comportamentos impróprios. A maldição estava incutida nela própria e não no exterior.
conto, Czarnecki, de, fadas, morbido, Thomas, tragedia
© Thomas Czarnecki, "Pocahontas - One more trophy".
Pocahontas era apenas um mito romântico. Thomas Czarnecki retrata-a como um troféu de alguém – uma vitória que viola os princípios da ética e é fortemente desencorajada.
conto, Czarnecki, de, fadas, morbido, Thomas, tragedia
© Thomas Czarnecki, "The Beauty and the Beast - Not so romantic".
conto, Czarnecki, de, fadas, morbido, Thomas, tragedia
© Thomas Czarnecki, "Jasmine - One last wish".
A Bela e a Fera ficaram aquém do romantismo, a Jasmine foi intoxicada com o seu último desejo, a Pequena Sereia morreu na praia e a ambição e curiosidade da Alice no Pais das Maravilhas aprisionaram-na a uma caverna sombria. O símbolo da sua curiosidade, o coelho branco, jaz morto.
conto, Czarnecki, de, fadas, morbido, Thomas, tragedia
© Thomas Czarnecki, "Alice - just a trap".
As fotografias de Thomas Czarnecki são o último suspiro dos contos de fadas, questionando as suas promessas e profecias.

sábado, 4 de agosto de 2012

"Los Maragatos”: um povo com sete vidas

 

"Los Maragatos”: um povo com sete vidas

 

Existem há séculos mas dizem-nos muito pouco. Localizado na província de Leão, Espanha, este povo insere-se num enclave geográfico e cultural, a “Maragatería”. Um autêntico achado que desafia o cavalgar da globalização. Têm tanto de enigmático como de puramente desconhecido. A sua identidade é a sua força e o mundo, o seu maior refúgio. Como?... É a história de um povo que resiste como “os gatos”.

maragatos espanha povo

© Maragatos de Murias de Rechivaldo (León, Espanha), (Wikicommons, Rodelar).

O termo parece aludir a uma espécie invulgar de felinos mas sabe-se que “maragato” deriva de “mericator”, “mercador”. Fizeram do comércio (e, recentemente, da música) a sua arte profissional, também pelas jazidas de ouro existentes no território. Apesar da resistência geográfica e da solidez cultural se manterem, hoje, contra as expectativas (mas tal só seria possível numa Espanha constituída pelas diferenças culturais e autonómicas), os “maragatos” fazem-se valer pela sua história e pelos seus costumes.

maragatos espanha povo

© Mapa Municipal de La Maragateria (León, Espanha), (Wikicommons, Tony Rotondas).

maragatos espanha povo

© Marmarole da Palus S.Marco no Inverno, (Wikicommons, Antonio De Lorenzo).

“Microclima” leonês

A “Maragatería”, comarca bem próxima do centro geográfico da província leonesa, é composta por mais de 50 “pueblos” e 8 “ajuntamientos”, sendo Astorga a localidade mais conhecida. Situa-se nas estepes montanhosas, quase cobertas por neve durante o ano e é, essencialmente, rural, pouco desenvolvida, com várias aldeias. Para o “maragato” Veja Carrera, falamos de 400 km quadrados de má e fria terra, sem grandes recursos, “alegrada”, apenas, pelo rio Turienzo e habitada por cerca de 15 000 pessoas.

Talvez resguardados pela encosta montanhosa e “debaixo” de neve, os seus hábitos e tradições não sofreram grandes variações. Como se diz que o que não mata torna-nos mais fortes, a força da globalização não parece, igualmente, ter chegado, até agora, perto deste composto populacional que se definiu como “maragato” entre seis a sete séculos atrás. Enquanto povo, são anteriores ao nome. Os seus cerimoniais e tradições ao estilo sacerdotal, com trajes típicos, parecem indiciar que não advêm de antigos berberes mas, sim, de fenícios ou judeus que chegaram antes da queda de Roma (talvez para explorar o ouro). Tais prováveis nómadas ter-se-ão relacionado com alguma primitiva tribo já lá fixada que reagia à romanização e que, entretanto, terá acabado por aceitar um monoteísmo semita, associado-o à sua anterior convicção religiosa.

maragatos espanha povo

© Vista de Teleno desde Astorga, (Wikicommons, Rodelar).

Esta cultura prima, acima de tudo, por uma singularidade que só espontaneamente e por via das circunstâncias se desenvolveu. As condições naturais e o histórico civilizacional e cultural deste povo acabaram por constituir um espaço de recriação e de desenvolvimento populacional único, como se de um “microclima” se tratasse. Em terra fria, o “calor” com origem nesse “micro-clima”, fruto da relação destas condicionantes, resultou na singularidade e é aqui que o Homem, por mais que tente distanciar-se, se assemelha cada vez mais à Natureza que o criou, tão igual às plantas.

maragatos espanha povo

© "El Maragato", ilustração do livro "Los Españoles pintados por sí mismos", edição de 1851, (Wikicommons).

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Mundo “globalizado” de contradições

A história “maragata” dita a importância da palavra para as vidas destas pessoas e para os seus negócios. A lealdade e a valentia eram outras das características pertencentes à matriz deste povo e que hoje, quer queiramos quer não, nos faz reflectir sobre a mudança das mentalidades da actualidade ocidental.

O maior refúgio desta cultura acabou por ser o mundo globalizado, em crescendo, sem que conseguisse apanhar o rumo deste localismo que, ainda assim, se descentralizou para a América Latina. Ainda que sendo um “pequeno ramo do corpo central” deste povo, os “maragatos”, no século XVIII, acabaram por fundar algumas povoações argentinas nas colónias espanholas da Patagónia, perante a ameaça, para a Coroa espanhola, de os ingleses e os franceses o fazerem primeiro. O actual território do Uruguai também viu estabelecer-se outra destas povoações.

Ainda que minimamente espalhado (pelo menos em tempos), este povo não pareceu nunca ter recebido generalizado reconhecimento e atenção do mundo. Bem pelo contrário. Em parte, por vontade dos próprios. A sua endogamia, inadvertidamente mas também enquanto parte integrante da sua cultura (mais em séculos anteriores do que agora), propiciou um maior isolamento face ao resto da sociedade, reforçando as próprias relações entre os da mesma “raça”, segundo Veja Carreira. O motivo para isso centrava-se na crença e no orgulho na sua génese biológica e na sua “consequente superioridade” sobre as tribos vizinhas, à custa da pureza de sangue, mais do que por questões de auto-defesa ou de mero isolamento.

De novo contra as expectativas, uma cultura deste cariz, pobre em número mas demasiado forte em simbolismo, resiste e insiste contrariando a tendência da globalização. Precisamente, protegendo-se dela, vivendo imiscuída no meio desse mundo quase sem fronteiras, que todos os dias influencia e sofre influências, por baixo da capa “global”. A estrutura social deste grupo vive e recria-se, centrada na suas tradições e no seu conservadorismo. Dificilmente, hoje, poderia ser alternativa às culturas mais abertas que vivem em seu redor. Mas, mais do que cultura, falamos de pessoas que não querem perder o seu pé. Querem, sim, ser tratadas como pessoas, no meio em que confiam. Seria realista desejar, em simultâneo, uma cultura aceite por todos e por cada um?

maragatos espanha povo
© Monumento ao Multiculturalismo de Francesco Pirelli, Union Station, Toronto, (Wikicommons, Robert Taylor).