sábado, 12 de dezembro de 2009


ALGO ETERNO...


Tudo na vida não passa de um momento
Acabam-se todos os tempos
Tem o tempo da alegria e da dor
do romance e do amor
da entrega e da fuga.
Todo tempo desnuda
um pouco do que somos
ou o muito do que não fomos.
Todo tempo tem sua hora marcada pra terminar.


Todo e qualquer tempo do mundo
cabe dentro de um único segundo
mesmo que pareça durar uma eternidade.
Todo tempo bem vivido deixa saudade
e os que fizeram sofrer
transformam-se num longa metragem
que, vez por outra, insistimos em rever.


Tenho cá minhas dúvidas
se realmente algum dia existiu
algo, alguém ou algum momento
que tornou-se eterno e nunca partiu.


*SILVANA DUBOC*
Quando a borboleta coroou a flor amarela
os lírios , em ângulo reto com seus caules,
fizeram uma profunda saudação...

João Guimarães Rosa

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Delírio

No parque mesmo, um perfumista oculto
ordenha heliotrópios...
Deixa aberta a janela...

Minhas mãos sabem de cor o teu corpo,
e a alcova é morna...
Apaguemos a luz...

Não sentes na tua boca
um gosto de papoulas?

Passa o lenço de sede de tuas mãos
sobre minha fronte,
e não me digas nada:
a febre está, baixinho, ao meu ouvido,
falando de ti...

Guimarães Rosa

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

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Sensações...

Quando minha alma encontrou a sua,
todas as minhas emoções contidas
e sensações até então reprimidas,
foram vividas e sentidas com você...

Quando minha vida encontrou a sua,
se fez mágica a minha existencia...
Descobri o amor em sua essencia,
saciei em você minhas vontades!

Quando te toquei, te beijei, te senti,
me entreguei de uma forma plena
a esse amor que vi nascer em mim!

Se os deuses dissessem sim ou não,
mesmo assim amor, te guardaria
infindavelmente dentro de mim...

(Renata Mangeon)


FORMOSO É O FOGO

Formoso é o fogo e o rosto
da amada junto a ele.
No lume de seu corpo
tudo em redor clareia.

Depois o que era fogo,
é espuma que se alteia.
E o mundo se faz novo
nas curvas da centelha.

Já não existe esboço,
mas desenhos, e teimam
— unos e justapostos.

Já não existe corpo:
são almas que se queimam
no amor de um mesmo sopro.

CARLOS NEJAR


segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

'VIGILÂNCIA'

A estrela que nasceu trouxe um presságio triste:
inclinou-se o meu rosto e chorou minha fronte:
que é dos barcos do meu horizonte?

Se eu dormir, aonde irão esses errantes barcos,
dentro dos quais o destino carrega
almas de angústia demorada e cega?

E como adormecer nesta Ilha em sobressalto,
se o perigo do mar no meu sangue se agita,
e eu sou, por quem navega, a eternamente aflita?

E que deus me dará força tão poderosa
para assim resistir todas a vida desperta
e com os deuses conter a tempestade certa?

A estrela que nasceu tinha tanta beleza
que voluntariamente a elegeu minha sorte.
Mas a beleza é o outro perfil do sofrimento,
e só merece a vida o que é senhor da morte.


Cecília Meireles
In Mar Absoluto e Outros Poemas (1945)
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Violoncelo

Chorai arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...

Trémulos astros...
Soidões lacustres...
- Lemos e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
- Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

Camilo Pessanha
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5º Motivo da rosa

Antes do teu olhar, não era,
nem será depois, - primavera.
Pois vivemos do que perdura,

não do que fomos. Desse acaso
do que foi visto e amado: - o prazo
do Criador na criatura...

Não sou eu, mas sim o perfume
que em ti me conserva e resume
o resto, que as horas consomem.

Mas não chores, que no meu dia,
há mais sonho e sabedoria
que nos vagos séculos do homem.

Cecília Meireles